Avançar para o conteúdo principal

Dia da Poesia com Manuel Alegre


Balada do poema que não

Quero escrever um poema
Um poema não sei de quê
Que venha todo vermelho
Que venha todo de negro
Às de copas às de espadas
Quero escrever um poema
Como de sortes
cruzadas


Quero escrever um poema
Como quem escreve o momento
Cheiro de terra molhada
Abril com chuva por dentro
E este ramo de alfazema
Por sobre a tua almofada
Quero escrever um poema
Que seja de tudo ou
nada


Um poema não sei de quê
Que traga a notícia louca
Da história que ninguém crê
Ou esta afta na boca
Esta noite sem sentido
Coisa pouca coisa pouca
Tão aquém do pressentido
Que me dói não sei porquê

Quero um poema ao contrário
Deste estado que padeço
Meu cavalo solitário
A cavalgar no avesso
De um verso que não
conheço


Que venha de capa e espada
Ou de chicote na mão
Sobre esta noite acordada
Quero um poema noitada
Um poema até mais
não


Quero um poema que diga
Que nada há que dizer
Senão que a noite castiga
Quem procura uma cantiga
Que não é de adormecer

Poema de amor e morte
No reino da Dinamarca
Ser ou não ser eis a sorte
O resto é silêncio e dor
Poema que traga a marca
Do Castelo de
Elsenor


Quero o poema que me dê
Aquela música antiga
Da Provença e da Toscânia
Vinho velho de
Chianti
Com
Ezra Pound em Rapallo
E versos de Cavalcanti
Ou Guilherme de Aquitânia
Dormindo sobre um
cavalo


E com ele então dizer
O meu poema está feito
Não sei de quê nem sobre
quê
Dormindo sobre um cavalo

Quero o poema perfeito
Que ninguém
há-de escrever
Que ele traga a estrela negra
Do canto e da solidão
Ou aquela toutinegra
De Camões quando escrevia
Sôbolos rios que vão

Que venha como um destino
Às de copas às de espadas
Que venha para viver
Que venha para morrer
Se tiver que ser será
E não há cartas marcadas
Só assim poderá ser
O poema que não há

Manuel Alegre, do livro “Babilónia”, 1983.

Mensagens populares deste blogue

"Tantos livros tão pouco tempo para ler"(*)

Livros gratuitos em domínio público. Um tesouro a não perder! Entre aqui Promoção da leitura digital dirigida aos alunos do secundário . : Ebooks em domínio público (Português europeu) Domínio público: Biblioteca digital em livre acesso. Clique aqui (*) retirado de http://tantoslivrostaopoucotempo.blogspot.com/ acedido em 6 e março 2019

Livro "Quando a minha escola abrir" em PDF

Quando a minha Escola abrir Uma história narrada por sete crianças que vivem o fecho da escola e estes tempos de confinamento, e sonham com o momento da sua reabertura.                                  Acede ao livro aqui

FEIRA DO LIVRO 25-26

A Biblioteca da Escola Básica Dr. Carlos Pinto Ferreira, como já é tradição, convida a comunidade educativa a visitar a Feira do Livro. Esta atividade conta com a parceria do Grupo LEYA e decorrerá entre os dias 2 e 5 de dezembro. Contamos com a vossa visita!